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terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Vouga Trail 2023 - 25k - De volta aos Abutres 2015?!?

Editado a 15/01 para acrescentar as fotos da lentinha... ;)


Decidi inscrever-me em Dezembro, após os 18kms dos Picos do Açor.
Adorei a experiência de voltar a correr "fora de casa", desfrutar dos trilhos sem pensar em competir!
Tinha de repetir e, desta vez superar-me, sair novamente da "zona de conforto" de provas abaixo dos 20kms...

Natal e Passagem de Ano já foram, chega a primeira semana do ano bem intensa, entre trabalho e cenas da vida que me roubaram alguma energia, mas que me deram ainda mais vontade de cumprir este desafio até ao fim. 💪

Sabia que as previsões meteorológicas para o fim de semana não eram agradáveis, mas o som da chuva a cair lá fora, adiou por uns minutos sair da cama... Até que saltei de debaixo dos lençóis, "Vamos lá aos Abutres 2!"

- "Inês, deixa a mamã vestir-te. Vais para casa da avó, que eu vou correr!
- Não, não, não!
- Sim, sim, que eu gosto de correr!
- Não, a mamã gosta da Inês e do Simão!
- Sim, a mamã gosta muito de vocês, mas também gosta de correr" 😉

Fui até Sever com este pensamento e a ele voltei durante alguns momentos mais desafiantes: "Estou aqui porque gosto!", "Ninguém me obrigou!", "Está a ser divertido!", "Sorri!"

A chuva não parou um segundo que fosse durante as quase 4h da minha prova, nem sequer antes do arranque, pelo que optei por fazer o controlo 0, o mais tarde possível.
Antes disso, tentei perceber o percurso, de modo a que o André pudesse ver-me a passar em algum ponto, mas sem qualquer expectativa de o voltar a ver antes de chegar à meta. Não havia quaisquer condições para ele tirar fotos, nem estar parado (minimamente seco) à espera de alguém a passar...
Só para chegar ao secretariado já tinha ficado toda molhada!

Enfim. Siga, sem reclamar!

Após pouco mais de 1km de estrada a subir, ainda dentro de Sever do Vouga, não tardou a entrarmos nos trilhos completamente encharcados, enlameados e bem espezinhados pelas centenas de atletas da Ultra e dos 35kms... Pois...

A chuva constante, humidade intensa (calculada por mim, de 99% 😝 - só porque conseguia respirar fora de água trrrr), lama um pouco acima de q.b, água a jorrar por todos os cantos fez-me logo relembrar os primeiros kms dos Abutres. Precisamos também de atravessar uns poucos riachos, com àgua pelos joelhos, mas 'tá-se bem.


Estava a ser mesmo divertido!

Até porque nunca caí (que feito!) e, felizmente, não assisti a nenhuma queda aparatosa. 

Agora sim, estava a conhecer Sever como deve ser... E a reconhecer alguns locais por onde já tinha passado, noutras andanças 😎



Fiquei de queixo caído ao passar a Cascata da Cabreia!
Nunca imaginei que estivesse com toda aquela pujança! Realmente impressionante! Linda! E já a meter o seu respeito... 

(não, não sou eu de cabelo curto :P. É só para verem bem com estava a Cabreia!)

Cheguei ao primeiro abastecimento, aos 8kms, de sorriso nos lábios. Mais do que uma pessoa me perguntou se eu estava contente. "Então não havia de estar?!"

Mas a força bruta da natureza veio a revelar-se um pouco mais à frente. 

Algures no km 11, o ribeiro tinha-se transformado num rio e não havia ponte ou corda onde me agarrar...
"Ora bem, eu com pouco mais de 5okgs devo ir por aqui abaixo!"
Felizmente, tememos todos o mesmo. A rapariga que, pouco antes, me tinha ultrapassado, parou, esperou uns segundos por mim, demos as mãos e ela também deu a mão a outros 2 que estavam à nossa frente. Ficamos ali, 4 pessoas agarradas umas às outras, passinho a passinho até chegar à outra margem. Com imensa ajuda de um senhor que ficou parado, dentro de água, próximo à margem do outro lado, para nos ajudar a progredir.
Não cheguei a perceber se era atleta ou da organização, suponho que seja a última hipótese. Mas mal saí da água a tremer com a adrenalina, senti medo... Medo mesmo, do género, "podia ter morrido... Gosto disto mas não foi para isto que eu vim!" E a pensar naquele senhor que ficou para trás, dentro de água, a ajudar outros atletas...

Obriguei-me a continuar, a pedir para não voltar a passar por um desafio assim. O trilho continuou sempre junto à água (quer dizer, a prova toda foi com água por perto, ao lado, por cima, por baixo!!!). Chovia imenso e, no entanto, fiquei com a ideia de ter sido a prova em que mais líquidos bebi.

Uns 500 metros à frente, voltamos a passar numa zona perigosa, nova travessia de rio. Desta vez mais estreita e com ajuda de um membro da organização que estava agarrado a uma árvore com uma das mãos, um pé dentro de água e a outra mão firme que nos ajudava a passar para cima de uma espécie de ponte, que mal se via, por debaixo da água a correr super rápido... 

Nova quebra emocional... E se o rapaz não estivesse ali? Caramba. Isto está de mais! 

Uns metros à frente, já a subir, cruzei-me com outro voluntário que ia com um saco grande na mão. Finalmente iam colocar alguma coisa para tornar aquelas travessias mais seguras! 

(soube, quando já estava em casa, que um rapaz terá ido arrastado pela água uns metros, mas que se conseguiu agarrar a um tronco e safou-se! 😱) 

Ok.. Ribeiros e rios já temos que chegue. Falta a subida. Será que é desta que acaba a água? 

Não, Daniela. Esquece lá isso.

Todos os trilhos tinham lama ou água com fartura, a terra não aguentava nem mais uma gota e não parava de chover! Os socalcos do terreno eram pequenas quedas de água, nas zonas mais planas formaram-se poças gigantes e mesmo os estradões, que cruzamos, estavam transformados em "rios".

Ainda fui passada pela Isabel, minha companhia nos Picos do Açor, sempre deu um pouco de ânimo ver uma cara conhecida. Ia cheia de energia, eu nem por isso...

A subida pareceu interminável... Nem é que tivesse uma inclinação impossível, mas...

Não sentia muito frio, tinha tirado o capuz há imenso tempo, ia apenas com o buff a fazer de bandolete, casaco "impermeável" completamente encharcado mas sempre fechadinho, mãos brancas e inchadas, luvas nos bolsos da frente do casaco todas molhadas, era indiferente tentar colocá-las nessa altura...
O vento ia aumentando à medida que subia e estar, constantemente, a meter os pés da água já se estava a tornar um massacre!
Ainda parei uns segundos, sentada num posto de transformação. Precisava de uma pausa, mas teve de ser muito breve, não podia deixar-me arrefecer.

"Enquanto não chegar lá acima, a água não vai parar", pensei. 
Acabei por dizer isto em voz alta, para o rapaz que ia ao meu lado há uns metros. Ele acenou com a cabeça.

A primeira metade da prova foi, praticamente, o tempo todo assim, em silêncio. Virada para os meus pensamentos. Os trilhos e a serra a imporem todo o respeito e cuidado. 

Fui gerindo a minha energia com pequenos goles de isotónico, uma barrita, que mastiguei imenso tempo e, mais tarde, um gel. Não repeti o erro do Açor. Parei e comi nos 2 abastecimentos. Sem comer/beber não ia aguentar este desafio...

Um bom pedaço depois de passarmos uma placa a dizer "Rota da Água e da Pedra" chegámos, 
finalmente, à parte mais alta! Chuva a bater tipo facas na cara, bora correr pelo estradão abaixo. E que bem que soube aquele pedaço de descida! Fiquei mais quente, ganhei outro ânimo!

Volta e meia via fitas pelo chão, não resistiram aos elementos... Houve um local ou outro em que fiquei na dúvida em relação ao percurso mas nada que levasse a me perder. Nessa altura já ia mais ou menos a par com as mesmas pessoas, que tenha conhecimento dos nomes, os Antónios e a Nádia, com as meias F*ck Covid 😁

A chegada ao segundo abastecimento desde o início da descida acabou por ser rápida e soube tão bem parar e comer, ainda que o local fosse frio e sem grande abrigo para a chuva que vinha de todos os lados... Nova receita: marmelada com sal 😖

Certo, faltam 8kms, as minhas costas ainda se estão a aguentar bem, "já não há-de ser nada!", vamos ao resto!

Mantive-me perto dos mesmos até ao final e acabei por passar algum tempo a conversar com a Nádia e com um dos Antónios. Os temas começaram pela nossa naturalidade, as provas que já fizemos e, entretanto, dei por mim já a falar sobre o meu trabalho. Pronto, quem me conhece sabe que esse tema dá pano para mangas... 😜
O que é certo é que os kms passaram e mal dei por eles, as subidas faziam-se mais a caminhar que a tentar manter o trote, fui passada por várias pessoas nestes últimos kms, mas não dei importância, não dava para muito mais. Ainda assim, sempre que podia, corria. Já era hora de terminar!
Mal conseguia ver o que dizia no meu relógio, tinha apontado para mais de 3h de prova e já ia perto das 4h... 😬
Como era de esperar, não vi o André toda a prova. Também mal vi os fotógrafos debaixo de umas capas pretas (nem eles me viram a mim, né? fotos com aquela chuva?...).

Travessia de estrada mais larga... Já estamos na civilização, está a acabar!

Ainda voltei a passar o António das cãibras, a Nádia, idem-aspas, incentivei-os a seguirem.
Comecei a ouvir o microfone e mantive o ritmo, já sozinha pelo parque da cidade.

Na pequena rampa até à meta, qual campeã (toda molhada a parecer um pito 😅), tirei finalmente o casaco e a mochila: há que mostrar as cores do clube a chegar à meta!



Tá feita!!! 💪
E estou viva!
Cumpri o desafio "pintado de verde" e também de castanho-pantone-laminha 😅
Cheia de frio, mas viva 😁


Mais uma prova para a história...

Qual será a próxima?!?


P.S.: Tal foi a aventura que me deu vontade de ressuscitar este blogue ao fim de uns 3 anos. Só para acrescentar que enquanto me lembrar da trabalheira que dá escrever aqui, não volto aqui, ok? Até à próxima!!! 😅

quinta-feira, 2 de julho de 2020

O nascimento da I.



Este é o nosso relato.
Do parto sonhado por mim, desde que fui mãe pela primeira vez.
Do parto em que eu há muito acredito. Natural. Fisiológico.

A I. veio quando quis e trouxe consigo muito mais do que eu podia alguma vez imaginar!

É o relato de uma enfermeira parteira, ou especialista em saúde materna e obstétrica, porisso, desculpem, antes de mais a sua extensão e também alguns pormenores que vos possam parecem a mais, mas que a mim, como mulher e enfermeira me fazem todo o sentido.
Qualquer coisa, passem à frente no vídeo :P


Sexta à noite senti algumas contrações desde o jantar tardio até à meia-noite, uma da manhã, talvez...
A certa altura achei que devia avisar a nossa parteira. Mas também que bastava enviar uma mensagem.
Estávamos cá em casa, com os padrinhos do Simão e eu fui falando que estava a sentir contrações mas não era coisa que doesse. Só incómodo. Continuamos a conviver na boa. Arrumei a cozinha, siga… Ainda fomos de carro aos pastéis e afinal optámos pelas tartes de maçã do McDonalds :D

De noite passou. Até me levantei uma vez por causa da Bina e estava normal.
Por isso, de manhã, disse à Isabel (que tinha uma aula até às 13h) que estava tudo bem, que nós também tínhamos uma sessão fotográfica e ia dar tempo para tudo! ;)
Fui passear com a Bina, os 20 minutos do costume e, apesar de ter tido algumas contrações no caminho, não as achei diferentes do meu habitual.

Siga para uma sessão fotográfica de um aninho, planeada à última da hora!
O Simão ficou nos meus pais, conforme combinado para a sessão.

Andamos pelo Buçaco. Das 11h até perto das 13h.

Mesmo no final, já os pais estavam a limpar a miúda (fizemos o smash the cake), recomeçaram as contrações.
Sentei-me mas afinal tive que me levantar. Disse ao André que tinham começado e ele pegou no material todo e fomos andando até ao carro. Senti umas 3 ou 4 contrações que já não davam para continuar a caminhar normalmente. Tinha de parar, respirar, apoiar-me e toca a andar.

No carro, mandei mensagem à minha irmã a dizer que não íamos lá almoçar e também disse ao André para não irmos aos pais dele conforme tínhamos combinado uma hora ou duas antes...

Avisei a parteira Isabel por mensagem. "Começaram e estão a ficar mais fortes. Mal acabou a sessão... Vamos agora para casa". Eram 13h04

Uns 10 minutos depois a caminho de casa, senti umas coisas, pensei no rolhão mucoso e perguntei ao André se tinha alguma toalha no carro (nada!), logo depois, pus a mão por fora das calças e vi que era líquido amniótico.
Já o André vinha muito depressa... Eu de olhos fechados para me concentrar e não pensar em mais nada.

Nova mensagem para a Isabel: "rompeu" às 13h17.

A Isabel e a Inês vieram a voar e nós do Buçaco em direção a casa. O mais rápido possível.
As dores eram toleráveis mas bastante frequentes.
Consegui ligar para casa dos meus pais num intervalo e, felizmente, atendeu o meu pai, disse-lhe que o Simão ficava lá para a tarde e nada mais.
No carro, consegui mentalizar a respiração que aprendi nas aulas de yoga. Das ondas do mar. E vim bem.

Ao chegar a casa, saí o mais normal possível do carro porque os vizinhos estavam cá fora a entrar para o carro e mal entrei no prédio, tive de me pôr de 4 nas escadas.
Novo intervalo e fui o mais rápido que pude para a banheira, queria tirar calças e lavar-me. 
E de lá, só saí para a piscina.

Não liguei água para não gastar água quente. Fiquei quase sempre de gatas porque sempre que me levantava vinha logo outra contração e elas continuavam muito frequentes...

O André foi logo tratar da piscina. Não falamos, cada um fez aquilo que tinha de fazer no momento certo.

Em cada contração, comecei a fazer Aaaaaaa, apoiada na beira da banheira, agarrada à mangueira do chuveiro e volta e meia a pensar no barulho que a vizinha velha carrancuda estaria a ouvir.
Precisei vocalizar, não chegava a respiração e para o fim, era até bem alto e fazia eco na banheira... Mas acho que não gritei.

Toquei-me. Senti a cabeça e as contrações continuavam em força. A piscina estava a encher. Pedi ao André para ligar à Isabel. Elas vinham a uns 20 minutos de distância.
E a partir daí ficaram sempre em alta-voz e depois em videochamada. Não ouvia metade do que me diziam e respondia só de vez em quando, mas era o suficiente para me sentir mais acompanhada.

Tiveram receio de não chegar a tempo.
Eu só pensava "espera um pouco bebé" "tenho de ficar de 4 para atrasar isto".
Sabia que estava cada vez mais perto, não havia volta atrás, que podia acontecer ali mesmo na banheira, sozinha, mas eu precisava tanto do apoio delas...

O André começou a carregar no fundo das costas na contração. Era como me sentia melhor.

Entretanto ele lembrou-se de me sugerir passar para a piscina. E lá fui num instante.
Soube depois que o barulho que estava a fazer estava a ser difícil de tolerar para ele :D

Ao entrar na piscina, percebi logo que a água estava num nível muito baixo…
Tentei abrir mais as pernas e baixar a barriga, mas não me sentia bem nessa posição.
E eu precisava tanto de apoio no fundo das costas...
"André põe mais água. Nem que seja fria"
Eu não tinha frio. Até tinha transpirado na banheira. Só queria mais água.

Comecei a sentir puxes e acho que me toquei novamente. Mas a cabeça até estava mais ou menos em cima. Nunca percebi dilatação, nem me interessou explorar. Só tentei perceber a proximidade da cabeça.

As parteiras começaram a videochamada a uns 5 minutos de chegarem e assustaram-se porque me viram na piscina e já com alguma vontade de puxar.
Pediram ao André para deixar a porta do prédio e casa aberta.
Segundo a Isabel, a Inês, saiu do carro que ficou todo mal estacionado, ainda em andamento :D

Mal chegou, deu-me a mão e a partir daí percebi que precisava de estar sempre a dar a mão a alguém, além da pressão atrás, no fundo das costas.

A Inês lembrou-se que nós queríamos filmagens e começou a filmar.

(e eu não tive tempo para fazer a tarte de maçã, nem ligar a música, nem pôr as luzinhas e pendurar os mantras que tinha pintado toda contente uns dias antes)

As parteiras perceberam que a água estava baixa e disseram ao André para entrar para subir o nível da água. Ele estava ao pé de mim já a fazer pressão no sacro.
Já dentro de água continuou sempre. Mesmo no intervalo das contrações. Só me sentia bem assim.


Na piscina, sentia que estava perto mas, ao mesmo tempo, que nunca mais chegava a hora.
Tive momentos em que chorei. Não pela dor, mas porque talvez duvidasse da nossa capacidade ou simplesmente porque me vinha ao subconsciente o parto do Simão.
E também dormia ou descansava nos curtos períodos de intervalo.

Chorava uns segundos e calava-me. E puxava.
A determinada altura a Bina, lá fora, chorou comigo…
Esteve sempre calada. Não ladrou. Foi impecável. Mas sentiu e chorou comigo.

A Isabel e a Inês tentaram pôr mais água quente com tachos aquecidos na cozinha mas não houve tempo para muito mais... Entretanto tiraram a mangueira que continuava a encher já com água fria. Fui eu que disse "tirem isto daqui!"
Porque a dado momento, olhei para baixo e não me fazia sentido aquilo ali no sitio onde ia nascer o bebé.

Toquei-me novamente e percebi que tinha cabelo.
Na banheira pareceu-me que não.. (adoro bebés cabeludos!)

A Isabel que, logo que pôde, equipou-se melhor, ficou sempre junto a mim, sentada numa cadeira e depois em pé para eu ficar a suspender-me agarrada aos braços dela durante o puxe.


Senti arder. Penso que primeiro à frente e depois no rabo: o anel de fogo.
"Está a arder!"
Fui dizendo o que sentia porque as parteiras nunca me tocaram.
Eu fui a minha parteira.

Em certo momento estava meio irritada, talvez de pensar que nunca mais nascia ou manter as minhas dúvidas na nossa capacidade de parir/nascer e tentei com as mãos afastar os lábios. Só percebi isso porque vi no vídeo. Mas não sentia que estava a fazer grande coisa.

Entretanto a cabeça lá saiu.
Não consegui "respirar o bebé para fora" como aprendi com a Janeth Balaskas e a Núria Vives. Fiz mesmo força. Empurrei-a e senti os pés dela também a empurrar cá dentro.

A única coisa que posso apontar a mim mesma neste nascimento foi essa pressa no final.
Tive de meter lá as mãos!

Senti-lhe a cara cá fora e vi que tinha uma circular do cordão ao pescoço. Disse em voz alta, mas percebi logo que era larga.
Só aí a Isabel pôs as mãos na água e tirou o cordão. Disse-me depois, que o fez só para eu não estar com essa preocupação, mas que não era necessário. E eu sabia que não.

Entretanto, achei que estava a demorar a sair o resto do corpo e pedi-lhes ajuda. E não demorou nada, mas pronto. Cabeça de enfermeira moldada por anos de experiências assistidas, sempre com intervenção, em vez de deixar os bebés rodarem e saírem por eles.

"Ajudem-me!" Qualquer coisa do género. "Tirem o bebé".

Mas as parteiras esperaram.

E a bebé saiu e eu puxei-a logo para o meu colo e sentei-me. O André ao meu lado.
Um cordão muito comprido. Ficou logo branquinho.

Chorei. Muito. Em simultâneo com ela.
Agradeci muito ao André. Sem ele não era possível. Dei-lhe beijinhos.

Só depois vi que era uma menina.
Eu sabia cá dentro que era…

"Temos uma filha".
Senti necessidade de dizer em voz alta para acreditar.


Entretanto, as parteiras foram buscar uma toalha molhada em água quente porque a da piscina não estava à temperatura ideal...

Uns minutos depois acharam melhor ela sair para não ter frio. E tudo bem. O cordão já tinha parado de pulsar e também eu comecei a tremer.

Depois de cortarem o cordão (o André não quis porque lhe fazia impressão), ele saiu da piscina, secou-se e passaram-na para o colo dele.

Entretanto a Isabel percebeu que a placenta já se estaria a soltar.
Pedi-lhe um tempo.
Respirei, fiz força e puxei eu pelo cordão.
Saiu muito bem.
Pareceu me pequenina. O cordão era mais fininho que o do Simão.
Passei-a para a taça. Tenho uma foto ou duas a rir-me com a placenta na mão. Que felicidade! :P

Ajudaram-me a sair e secaram-me. Fui para a chaise longue do sofá a tremer. Puseram muitas toalhas para ficar mais quente.
Mas, quem mais me aqueceu foi ela. Estava tão quentinha vinda do colo do pai ;)

Depois ali ficamos um tempo.
As parteiras confirmaram que não estava a perder sangue e foram fazer os prints da placenta para a cozinha. Pareceu-me que se estavam a divertir com os trabalhos manuais :)

E eu a namorar com a minha bebé. Sossegadinhas, sem interferências.

Só mais tarde fizeram os registos e deram os pontos com anestesia local spray.
Sem picada.
Tinha lacerado um bocadinho para o rabo. Superficial, felizmente, e sem apanhar a porcaria das varizes.


Passado um bocado, pesaram e mediram a bebé e administraram a vitamina K enquanto ela estava a mamar. Só chorou mesmo ao sair da agulha.

Liguei para casa dos meus pais ainda a bebé estava a chorar.
Achei melhor fazer uma videochamada para o Simão nos ver e mostrar à minha mãe e irmã que tinha nascido. Em casa. E era uma menina. ;)


O Simão achou piada ela estar a chorar. Ficou todo eufórico.

A Isabel e a Inês começaram a arrumar tudo. Esvaziar a piscina e arrumar as toalhas sujas.

A minha mãe achou que estivéssemos sozinhos! Virei a câmara para as parteiras e ela ficou mais descansada.
Disse-lhes para virem quando quisessem. Estávamos tão bem…

Mais tarde, falamos com os pais do André. Primeiro, ele enviou umas mensagens e logo a seguir o pai dele fez uma publicação no facebook :P. Depois por telefone, o que deixou a mãe dele super confusa por eu "já" estar em casa :D
Eles vieram também conhecer a bebé e só depois de cá estarem é que perceberam que tinha sido cá em casa.

As parteiras foram embora umas 3 horas ou mais depois do parto. Ainda comeram e beberam café. Pelo menos a Isabel que não tinha almoçado. Não lhe demos tempo!!!
Eu também comi carne e arroz eram umas 17h. Que maravilha de começo de puerpério!  :D

Antes de saírem, estivemos a ver a lista de nomes mas não chegamos a conclusão nenhuma e vimos também o vídeo do momento do nascimento. Nesse preciso momento, a bebé começou a chorar! Super sensitiva. Tive que lhe dizer que a mamã estava bem, mas imaginava que a ela lhe tivesse doído...

Depois de saírem e antes de chegar a minha irmã, mãe e Simão, conversámos os dois.
Disse ao André para ser ele a decidir o nome.
Achei que merecia.
Ele apoiou-me para além de qualquer expectativa!...

Tinha de ser ele a escolher o nome.

Ele consultou novamente a minha lista com as duas colunas: menino ou menina.

E daí ficou Inês.


Inês
Parto natural, em casa
27.06.2020    15h17

sábado, 13 de junho de 2020

Para ti S., em breve irmão mais velho


Sabes uma coisa?
Tens sido incrível com a mamã!


Dás-me muito miminho e abracinhos, fazes festas na barriga, falas bastante no bebé, que para ti, se mexe sempre que pões a mão na minha barriga, ainda que seja só por uma fracção de segundo.

Desde que te contei, às 9 semanas, que estávamos à espera de um bebé e te pedi segredo.
Achei que tinha feito asneira (tinha decidido esperar pelo Natal para contar aos avós), mas tu, ainda nem 3 anos feitos, soubeste guardar o nosso segredo exemplarmente.
Ficaste logo feliz, quiseste ver o bebé e disseste que a Ana (a tua educadora!) ia ficar contente :D
Só mencionavas o bebé quando estávamos os 2 ou os 3 juntos e tinhas um sorriso especial quando pensavas no assunto.


Sabes S., a mamã tem aprendido imenso contigo!
Desde que eras uma sementinha na minha barriga...
Ser tua mãe, as experiências que tenho vivido contigo, têm feito de mim uma pessoa melhor, tenho crescido imenso, não apenas a nível pessoal como profissionalmente. Abriste-me vários horizontes que eu não conhecia de todo.
Por tua causa, esta gravidez (apesar da loucura da pandemia) foi vivida de uma forma bem mais positiva, tranquila e também mais ativa e saudável.

Não podia ter melhor preparação para este momento, que tudo aquilo que me ensinaste e ensinas todos os dias.

Agora que se aproxima o momento de conhecermos o/a bebé, estou a tentar imaginar-me como mãe de dois e penso ainda mais vezes se estarei à altura da tarefa. Tenho receio de não conseguir dividir de forma justa o amor e a atenção... Espero estar à altura do desafio, mas também que a transição seja mais suave por não ser exatamente tudo novo.
Sei que para ti também vai ser um grande desafio teres de nos partilhar com outra pessoa... 

Mas sabes S., dar-te um mano ou mana foi uma das coisas que mais pesou na decisão de termos outro filho. Para mim, ter irmãos é não estar mais sozinho, é ter um/a amigo/a e poder partilhar a vida para sempre com essa pessoa que é um pouco de nós, mesmo quando os nossos pais já não estão cá. Por isso, este é o maior "presente" que te podíamos alguma vez dar.

Este período em que temos estado por casa, permitiu-nos dedicar-te mais tempo, mas também me fez perceber ainda mais a falta que faz teres alguém com quem brincar, arreliar-te, fazer asneiras em conjunto... A Bina nem sempre alinha nas tuas brincadeiras :P



Ainda há bem pouco tempo ficavas chateado com a ideia de seres "mais velho" e agora, com o tempo e graças à história dos 3 porquinhos que adoras, sabes que isso é uma coisa boa! "Eu sou irmão", dizes tu com orgulho ;)

Sei que vais sentir alguns ciúmes, quem nunca? Mas também sei que vais ser super carinhoso e protetor. Basta ver como reages desde sempre, perante bebés mais pequenos que tu!
Tens um modo especial, muito suave, de fazer festinhas e dar beijinhos. Nem pareces ter a idade que tens.


Obrigada pela sugestão do nome Martinho para o bebé, meu pequenito. Mas algo me diz que não a vamos aceitar...  Espero que isso não te incomode muito... :P

Obrigada também por alinhares na minha última novidade das fraldinhas reutilizáveis. Pareces um boneco a andar com o volume das fraldas de noite mas é giro saber que gostas destas fraldas porque "dão para dar palmadas no rabo" :P

Não tarda, a mamã "vai tirar o bebé" como tu perguntaste ao papá no outro dia em que fui às análises e a nossa vida nunca mais vai ser como antes...

Vai ser, 
com certeza, melhor, meu pequenito!

Amo-te muito!
Tenho muito orgulho em ti ;)


A mamã D.

13.06.2020
Às 37 semanas e 1 dia de bebé2

sexta-feira, 13 de março de 2020

24 semanas

Esta carta é para ti bebé,
no dia em que completas as 24 semanas na minha barriga e depois duma semana caótica no mundo, com as notícias sobre maldito vírus a aproximarem-se cada vez mais de nós...

Ainda não sei o teu sexo, decidi não saber até te ver nascer. Só o papá é que sabe e está a guardar bem o segredo. Não pensamos ainda em nomes, embora já me tenham vindo alguns à ideia. Penso que não te deverás incomodar muito se só decidirmos depois de te conhecermos...

Imaginei viver esta gravidez duma forma completamente diferente daquela que está a acontecer... 

Planeei, na minha cabeça, continuar a fazer os meus relatos semanais ou pelo menos mensais da tua gestação, mas com o pouco tempo que me sobrou com o trabalho têm vindo a ser constantemente adiados.
Planeei correr mais, mas pouco depois do primeiro trimestre já não me senti bem para o fazer. 
Planeei trabalhar para me manter ativa, pelo menos até ao final de Março ou meio de Abril mas, esta semana, com o cansaço dos turnos, situações complicadas que pareço atrair, a maldita variz que está cada vez pior e a aproximação assustadora do coronavírus, desisti.

Precisava de me concentrar em ti, na nossa saúde e nos proteger.

Planeei fazer algumas coisas enquanto estivesse por casa, sendo certo que teria umas horas por dia para nós, enquanto o mano estivesse na escolinha, mas... O meu coração disse-me que não valia a pena esperar pela decisão do governo de fechar as escolas para ficar com o S. em casa e assim fiz. O nosso isolamento social começou, na medida do possível e apesar do pai continuar a ter de ir trabalhar :|

Sinto que não tenho o tempo que gostaria para ti. Talvez venha a sentir isso toda a vida...

Hoje fizeste 24 semanas e o meu pensamento neste momento de grandes duvidas e ansiedade é que, se precisares nascer mais cedo, já irão investir em ti, meu bebé pequenino. Como se não fosses, até agora, tão real como a partir de hoje... Como se não te sentisse mexer (e bem!) há semanas, meses até! Mas são assim as regras de atuação. E eu sei demasiado bem como têm de ser respeitadas.

Meu amor pequenino, obrigada por todos os pontapézinhos e empurrões que me dás. Não imaginas a tranquilidade e esperança que me transmitem (apesar de por vezes doerem um bocadinho...) neste tempo de grande angústia, em que, notícia atrás de notícia, ficamos cada vez com o coração mais apertadinho... 

Que o tempo ajude a que esta pandemia se controle o mais rápido possível e que tu venhas no teu tempo, com tranquilidade e todo o amor que temos para te dar.

Da mamã,
D.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Nascer está a mudar

Há muito que não escrevo sobre a minha outra paixão, a saúde materna...
Já lá vão 4 anos que sou especialista nesta área, mas é um amor bem mais antigo.

Quando engravidei, decidi que não fazia sentido partilhar aqui os meus pensamentos e ideias sobre a maternidade. Não queria tornar isto um babyblog.

Mas desde que fui a uma formação sobre Parto Ativo com a inspiradora Janet Balaskas (fundadora do Active Birth Center em Londres) que renovei a minha motivação para defender, conforme posso, a bandeira do parto.
O mundo precisa de mais partos naturais, fisiológicos, ativos, não apenas pelo movimento físico, mas pelo papel ativo que a mulher/casal/bebé podem e devem assumir no seu parto/nascimento, sempre que tal é possível.

No meu dia-a-dia de trabalho (numa maternidade central) assisto diariamente à força esmagadora das políticas do nascimento.
Refiro-me a todas as normas, deveres, obrigações no parto institucionalizado que não respeitam a liberdade/autonomia/poder/capacidade da mulher/casal/bebé para parir/nascer.
São políticas que não oferecem opções naturais, pelo contrário, forçam a intervenções para minimizar o efeito de outras intervenções.
E, em muitos casos, não se regem por evidências científicas, mas apenas por tradição, porque "aqui' é assim...
Porque mesmo quando o risco é baixo, é sublinhado o medo e o risco do parto. Risco que é aumentado de sobremaneira pela interferência médicas e tecnológica.

Encontrei hoje este texto no facebook do "Badassmotherbirther" e fiz a minha tradução:

"Imaginem o quanto as políticas de nascimento mudariam se todas as mulheres:
- Percebessem que são elas que têm o poder
- Percebessem que elas e só elas dominam o seu corpo
- Não fossem ensinadas a ter medo do parto
- Lhes fosse perguntado se podiam ser tocadas em vez de forçadas
- Fossem ensinadas a acreditar no seu corpo e no parto

Imaginem o quanto as políticas de nascimento mudariam se o parto fosse considerado um evento natural da vida em vez de uma emergência


Imaginem o quanto as políticas de nascimento mudariam se tomassemos o parto como algo nosso

Não As políticas de nascimento deixarão de existir quando elas não tiverem mais poder sobre o TEU parto

Uma mulher confiante, tem opiniões e consegue parir segundo os seus termos é muito assustadora para as políticas do nascimento


As políticas do nascimento têm medo que TU acordes


Imagina se os papéis fossem invertidos e estas tivessem medo em vez de ti..."




Para terminar, só para esclarecer e não pensarem que estou doida:
Os avanços da tecnologia e da medicina são uma importante conquista. Felizmente temos fácil e rápido acesso às mesmas nos casos em que são realmente necessárias ou sempre que são necessárias.
Mas para tudo, deve haver peso, conta e medida, para que o benefício da sua utilização não se torne inferior ao prejuízo.
O parto é um acontecimento normal, natural, fisiológico, para o qual o corpo da mulher e do bebé estão preparados. A cultura é que nos fez esquecer isso...

Mas a cultura já está a mudar ;)


quarta-feira, 27 de junho de 2018

Nelo Tri-Epic 2018

Passados uns anos e com alguns kms de treino de corrida nas pernas, aceitei o desafio de participar no TriChallenge, aquela que até agora foi a única prova que me fez desistir...

Como o desafio ainda mete o seu respeito (35kms BTT, 15kms Trail e 6kms canoa!!!), tenho-me preparado conforme posso para o superar. A ideia será sempre e "só", chegar ao fim (apesar de sonhar com um pouco mais, claro :P)

Ora, nada melhor para treinar para uma espécie de triatlo que outra prova semelhante (apenas com menos kms na parte da canoa - 3 em vez de 6kms), e igualmente com GPS como única forma de orientação. Sendo assim, rumámos a Barcelos no fim de semana passado, com os meus sogros para tomar conta do puto, para participar no Nelo Tri Epic, uma organização dos bem conhecidos Amigos da Montanha.
O melhor e que mais aliciava o André era a ideia de poder ganhar a prova à geral e levar como prémio a canoa Nelo 510 Cup (patrocínio super espetacular da Nelo!)...

De acordo com a lista de inscritos, eu era a única mulher a fazer a prova individual. As outras participantes iam às estafetas por modalidade. Apesar disso, e mesmo sem a companhia da minha amiga que fará dupla comigo no TriChallenge, estava decidida a ir e chegar ao fim. Mais um pódio "garantido" portanto ;)

Acabámos por ficar em Braga na véspera e ainda fomos dar uma voltinha às ruas do centro histórico depois de jantar, já que era o fim de semana do São João. Mesmo de noite estava imenso calor e previa-se um bom dia de praia no sábado...


À partida, o speaker com o seu sistema de som móvel tipo troley (achei piada à coluna com rodinhas :P) veio logo falar comigo, porque supostamente eu era a única mulher no arranque. Já estava com os nervos pré-prova, mas ainda deu para trautear a música do Anselmo Ralph :D
Acabei por saber, um pouco mais tarde, que havia outra senhora na prova individual, uma espanhola, sem GPS. Não me perguntem como fez a prova, mas acredito que tenha andado sempre colada ao grupo do fim.

Arrancámos uns minutinhos depois da hora prevista e o meu GPS vai abaixo passados uns segundos!!!
Pensei que estava tramada, mas depois de o desligar e voltar a ligar (velho truque de engenharia avançada LOL) ele voltou à vida e nunca mais falhou.
Siga, pela estrada, a ganhar velocidade para não ficar muito atrás. No entanto, percebi que nem era preciso esforçar-me muito, o pessoal parecia ir a medo, afinal ainda tínhamos muitos kms pela frente...

Já no trilho, consegui passar dois meninos (adoro passar gajos eheh) e fui andando bastante tempo sozinha, a um ritmo satisfatório para mim que não percebo nada de BTT, sempre a ver se não me enganava muito com a navegação.
Depois do km 20, comecei a ver dois rapazes à minha frente e meti na ideia que havia de os ultrapassar. Há que criar objetivos para motivar  :P
O problema foi que pouco depois começamos a subir a sério, pelo meio de calhaus de granito, à bela maneira da montanha dos Amigos.
Um pouco mais à frente, acabei por conseguir apanhar os rapazes e ultrapassá-los, toda contente. Mal eu sabia que iam ser a minha companhia e apoio no trail...

Mais ou menos aos 30kms comecei a ouvir rancho, estava no Minho, carago!
Tão bom sair do monte e perceber que já estamos perto da civilização :P
Estava quase a acabar a primeira etapa!
Tirando o calor e já ter um bocadinho de fome, estava bem disposta e pronta a seguir.
A verdade é que não havia um único abastecimento de sólidos em nenhuma das etapas, só na zona de transição. Estava à espera disso e supostamente precavida, mas um dos géis que levava deve ser saltado do bolso do equipamento...

Antes de chegar à zona de transição, cruzei-me com um atleta com dorsal de trail a correr, perdido, no percurso do BTT. Tinha a certeza que ele estava enganado, não havia ali coincidência dos tracks de GPS, por isso avisei-o para voltar para trás.

Na transição, confirmei com o meu sogro que a prova do André estava a correr bem, comi o que pude, certifiquei-me que levava os flaks cheios e geis e barritas para o que fosse preciso.

Custou bastante fazer a mudança das pernas do modo bicicleta, para modo corrida. Já estava imenso calor e eu que nem gosto muito de BTT, só me imaginava a fazer os 14,5kms de trail em cima da bike...

Lá segui em passo meio lento e encontrei o atleta-perdido (esqueci-me de lhe perguntar o nome!), já tinha feito 2km a mais. Seguimos a par num single track agradável  junto ao rio e ainda acompanhámos por um bocadinho dois atletas das estafetas, todos frescos.

O calor da hora de almoço era insuportável, mesmo à sombra não se sentia grande alívio... Quando aparecia uma subidita, parava logo de correr. Ia seguindo a passo, não dava para mais.

Fui seguindo sozinha e pelos 3/4km apanhei um grupo de rapazes da zona de Vila Real que também iam quase sempre a passo. Ainda brincaram comigo "Vais ao pódio, mas ainda tens de penar!"
Agradeci com o melhor sorriso amarelo que arranjei e lá fui andando com eles até que o trilho tornou-se mais plano e acabei por recomeçar a correr, devagarinho e eles ficaram para trás.

Pelos 5,5kms, tínhamos de atravessar uma estrada bastante movimentada. Estive ali uns minutos ao sol a tentar passar e já meio desorientada, vi uma paragem de autocarro do outro lado da estrada com um banco de madeira. Tinha MESMO de parar.
Sentei-me, e acabei por me deitar logo a seguir e pôr as pernas para o ar. Estava super quente e quase de certeza hipotensa.

O grupo de rapazes apareceu, perguntaram se precisava de ajuda, mas disse-lhes para seguirem. Na altura ainda acreditava que ia recuperar.
Tentei levantar-me duas ou três vezes mas estava muito zonza...
Ia ter de desistir... Caramba, logo no início do trail!!

Quando estava a ponderar se esperava mais um pouco ou ligava para a organização, apareceu um casal de carro a oferecem-me água. Lembraram-se de vir dar apoio só porque sim. Como disse o rapaz "eu também faço trails e sei como é levar a marretada"

Entretanto, apareceram os dois rapazes que eu tinha ultrapassado no BTT, o João de Famalicão e o Miguel de Rio Tinto. Continuaram a partir daí sempre comigo.

Só me comecei a sentir melhor depois de me molharem as pernas e braços. Estava mesmo quente e sem aquela preciosa ajuda não tinha conseguido continuar.

O casal ofereceu-nos água, cola, bananas, melancia. Tinham tudo! Sem outras palavras, simplesmente fantásticos!
Já estava bem melhor quando apareceu uma carrinha da organização. Estavam uns metros à frente e o grupo de Vila Real tinha-os avisado que eu não me estava a sentir bem ;)

Com a recuperação possível, agradecemos imenso ao casal e lá segui na companhia dos meus novos amigos.

Desde esse momento, sempre que havia pontos de controlo com água, fazia questão de me molhar toda e  encher os sacos, sempre a sonhar com um mergulho no rio quando fosse a parte da canoa.

Apanhámos o grupo de Trás os Montes no ponto de controlo seguinte. Um deles estava muito em baixo, o Daniel, lembrava como eu estava há uns minutos atrás. Molhei-lhe as pernas e dei-lhe algum ânimo mas sabia que, felizmente, ele tinha companhia e eu tinha que seguir enquanto podia.

Depois de subir um bom bocado e nos debatermos com o track do GPS (se estivesse sozinha tinha-me perdido muito mais vezes...), finalmente chegámos ao marco geodésico, o pico mais alto do trail (onde me lembrava de ter passado no primeiro trail em que fiz na minha vida!). A partir daí era "só" descer até Barcelos. Foi a parte mais rápida e divertida. A saltitar pelo meio das rochas de granito.
Quase no fim da descida da montanha, acabámos por apanhar novamente o atleta-perdido. Já ia com quase 19km!!! Que pontaria pro engano :P

Nos últimos kms do trail, fui tentando correr mas a falta de sombra à chegada à cidade, estava outra vez a dar cabo de mim.
Passámos pelo riacho que nos tinham dito que existia, mas o muro para sair de lá era demasiado alto para eu conseguir trepar... Siga, ao calor...
Já em Barcelos, os meus companheiros começaram a correr e eu fui andando conforme podia, a tentar estar à sombra tanto quanto era possível.

Em 14,5km de trail devo ter feito mais de metade a andar. Nunca me tinha acontecido.
Lembrei-me imensas vezes do TSM debaixo dos 40 graus de Portalegre. Foi demais. Mas o que interessava era chegar ao fim.

Perto da zona de transição, vejo o André já sem o equipamento. Estava contente por só faltar a parte da canoa, mas ao mesmo tempo, completamente estourada! Nem me lembrei de lhe perguntar como tinha corrido a prova e em que lugar ficou.
Só lhe pedia água, cola, bananas... :P

Enchi duas garrafas de água, enfiei-me dentro do colete, dei uma beijoca ao meu pequenito que estava todo sorridente na zona da meta e segui a passo para a zona de entrada no rio.
Ainda não conseguia voltar a correr.
Tinham-nos avisado que ainda ficava a uns 300m de distância e bem que custaram a fazer esses metros.
De qualquer maneira estava feliz, eram mais ou menos 14h. Ainda tinha uma hora para fazer a parte da canoa até ao suposto limite temporal da prova.

Quando cheguei ao rio, esqueci-me de dar o tão esperado mergulho. Tava mais preocupada em orientar-te com os pedais (nem sabia que existiam pedais na canoa! :P) e pagaias!

Lá fui andando aos esses até me orientar mais ou menos com aquilo e siga rio acima.
Do lado direito começo a ver um atleta na água. Tinha virado a canoa! Pensei "tou lixada, então isto vira?"
Uns metros à frente percebi que era o atleta-perdido. Só podia!! 

Decidi continuar porque se o tentasse ajudar caía à água também. Entretanto veio um barco a motor da organização ajudá-lo a virar a canoa.

Do outro lado do rio, já vinham em sentido contrário os meus companheiros do trail. Todos contentes e a dar-me força para continuar.

Só nesta altura apareceram algumas nuvenzitas no céu e vento para ajudar a refrescar. Já me sentia outra. Só faltavam um bocadinho de nada para acabar!

Antes de chegar à bóia, ainda me atrapalhei com as algas que prendiam o leme, mas um senhor da organização que estava de canoa, veio-me dar um empurrãozinho.

Já no sentido da corrente, fui aumentando o ritmo.
Passei pelo Daniel (aquele que estava a morrer no trail como eu) e fizemos uma festa! Pensei que ele tinha desistido, mas lá vinha ele com o resto da malta de Vila Real.

Fui o mais rápido que consegui até à margem e depois de ter calçado as sapatilhas, bota a correr pelo trilho fora até às meta! Já não parei. Estava fresca e cheia de energia. Nem parecia a mesma.



Ainda deu para mandar um salto ao cruzar a meta :D

O pessoal da organização veio ter comigo a dar os parabéns. Já disse que eles foram todos super simpáticos? Acho que não, mas digo agora: impecáveis!

"Parabéns, e ainda tens direito a uma canoa!"
"O quê?!?"

Só aí fiz o clic: o André tinha ganho a prova! Uhuuuu!!!
A canoa é nossa!!!
E vai ser em rosinha-choque, como eu pedi... 😊


Antes da entrega dos prémios, já passava das 15h, vimos chegar do trail um grupo grande onde estava a outra mulher em prova individual.
A organização fez questão de esperar para ver se ela acabava a prova e ia ao pódio comigo, mas demorou bastante a ir para a canoa e lá fui eu (sozinha) mais uma vez ao pódio:

1.º lugar femininos! Eheh


Depois deste relat
o super extenso (sorry not sorry!), só posso acrescentar:

Que prova espetacular!
Recomendo! Sem dúvida alguma.

Organização 5 estrelas, super simpáticos, trilhos bem escolhidos e com técnica q.b. dada a dimensão da prova, pontos de controlo bem espalhados pelo trilho. Melhor só mesmo com um posto com comida a meio do BTT.