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quinta-feira, 2 de julho de 2020

O nascimento da I.



Este é o nosso relato.
Do parto sonhado por mim, desde que fui mãe pela primeira vez.
Do parto em que eu há muito acredito. Natural. Fisiológico.

A I. veio quando quis e trouxe consigo muito mais do que eu podia alguma vez imaginar!

É o relato de uma enfermeira parteira, ou especialista em saúde materna e obstétrica, porisso, desculpem, antes de mais a sua extensão e também alguns pormenores que vos possam parecem a mais, mas que a mim, como mulher e enfermeira me fazem todo o sentido.
Qualquer coisa, passem à frente no vídeo :P


Sexta à noite senti algumas contrações desde o jantar tardio até à meia-noite, uma da manhã, talvez...
A certa altura achei que devia avisar a nossa parteira. Mas também que bastava enviar uma mensagem.
Estávamos cá em casa, com os padrinhos do Simão e eu fui falando que estava a sentir contrações mas não era coisa que doesse. Só incómodo. Continuamos a conviver na boa. Arrumei a cozinha, siga… Ainda fomos de carro aos pastéis e afinal optámos pelas tartes de maçã do McDonalds :D

De noite passou. Até me levantei uma vez por causa da Bina e estava normal.
Por isso, de manhã, disse à Isabel (que tinha uma aula até às 13h) que estava tudo bem, que nós também tínhamos uma sessão fotográfica e ia dar tempo para tudo! ;)
Fui passear com a Bina, os 20 minutos do costume e, apesar de ter tido algumas contrações no caminho, não as achei diferentes do meu habitual.

Siga para uma sessão fotográfica de um aninho, planeada à última da hora!
O Simão ficou nos meus pais, conforme combinado para a sessão.

Andamos pelo Buçaco. Das 11h até perto das 13h.

Mesmo no final, já os pais estavam a limpar a miúda (fizemos o smash the cake), recomeçaram as contrações.
Sentei-me mas afinal tive que me levantar. Disse ao André que tinham começado e ele pegou no material todo e fomos andando até ao carro. Senti umas 3 ou 4 contrações que já não davam para continuar a caminhar normalmente. Tinha de parar, respirar, apoiar-me e toca a andar.

No carro, mandei mensagem à minha irmã a dizer que não íamos lá almoçar e também disse ao André para não irmos aos pais dele conforme tínhamos combinado uma hora ou duas antes...

Avisei a parteira Isabel por mensagem. "Começaram e estão a ficar mais fortes. Mal acabou a sessão... Vamos agora para casa". Eram 13h04

Uns 10 minutos depois a caminho de casa, senti umas coisas, pensei no rolhão mucoso e perguntei ao André se tinha alguma toalha no carro (nada!), logo depois, pus a mão por fora das calças e vi que era líquido amniótico.
Já o André vinha muito depressa... Eu de olhos fechados para me concentrar e não pensar em mais nada.

Nova mensagem para a Isabel: "rompeu" às 13h17.

A Isabel e a Inês vieram a voar e nós do Buçaco em direção a casa. O mais rápido possível.
As dores eram toleráveis mas bastante frequentes.
Consegui ligar para casa dos meus pais num intervalo e, felizmente, atendeu o meu pai, disse-lhe que o Simão ficava lá para a tarde e nada mais.
No carro, consegui mentalizar a respiração que aprendi nas aulas de yoga. Das ondas do mar. E vim bem.

Ao chegar a casa, saí o mais normal possível do carro porque os vizinhos estavam cá fora a entrar para o carro e mal entrei no prédio, tive de me pôr de 4 nas escadas.
Novo intervalo e fui o mais rápido que pude para a banheira, queria tirar calças e lavar-me. 
E de lá, só saí para a piscina.

Não liguei água para não gastar água quente. Fiquei quase sempre de gatas porque sempre que me levantava vinha logo outra contração e elas continuavam muito frequentes...

O André foi logo tratar da piscina. Não falamos, cada um fez aquilo que tinha de fazer no momento certo.

Em cada contração, comecei a fazer Aaaaaaa, apoiada na beira da banheira, agarrada à mangueira do chuveiro e volta e meia a pensar no barulho que a vizinha velha carrancuda estaria a ouvir.
Precisei vocalizar, não chegava a respiração e para o fim, era até bem alto e fazia eco na banheira... Mas acho que não gritei.

Toquei-me. Senti a cabeça e as contrações continuavam em força. A piscina estava a encher. Pedi ao André para ligar à Isabel. Elas vinham a uns 20 minutos de distância.
E a partir daí ficaram sempre em alta-voz e depois em videochamada. Não ouvia metade do que me diziam e respondia só de vez em quando, mas era o suficiente para me sentir mais acompanhada.

Tiveram receio de não chegar a tempo.
Eu só pensava "espera um pouco bebé" e "tenho de ficar de 4 para atrasar isto".
Sabia que estava cada vez mais perto, não havia volta atrás, que podia acontecer ali mesmo na banheira, sozinha, mas eu precisava tanto do apoio delas...

O André começou a carregar no fundo das costas na contração. Era como me sentia melhor.

Entretanto ele lembrou-se de me sugerir passar para a piscina. E lá fui num instante.
Soube depois que o barulho que estava a fazer estava a ser difícil de tolerar para ele :D

Ao entrar na piscina, percebi logo que a água estava num nível muito baixo…
Tentei abrir mais as pernas e baixar a barriga, mas não me sentia bem nessa posição.
E eu precisava tanto de apoio no fundo das costas...
"André põe mais água. Nem que seja fria"
Eu não tinha frio. Até tinha transpirado na banheira. Só queria mais água.

Comecei a sentir puxes e acho que me toquei novamente. Mas a cabeça até estava mais ou menos em cima. Nunca percebi dilatação, nem me interessou explorar. Só tentei perceber a proximidade da cabeça.

As parteiras começaram a videochamada a uns 5 minutos de chegarem e assustaram-se porque me viram na piscina e já com alguma vontade de puxar.
Pediram ao André para deixar a porta do prédio e casa aberta.
Segundo a Isabel, a Inês, saiu do carro que ficou todo mal estacionado, ainda em andamento :D

Mal chegou, deu-me a mão e a partir daí percebi que precisava de estar sempre a dar a mão a alguém, além da pressão atrás, no fundo das costas.

A Inês lembrou-se que nós queríamos filmagens e começou a filmar.

(e eu não tive tempo para fazer a tarte de maçã, nem ligar a música, nem pôr as luzinhas e pendurar os mantras que tinha pintado toda contente uns dias antes)

As parteiras perceberam que a água estava baixa e disseram ao André para entrar para subir o nível da água. Ele estava ao pé de mim já a fazer pressão no sacro.
Já dentro de água continuou sempre. Mesmo no intervalo das contrações. Só me sentia bem assim.


Na piscina, sentia que estava perto mas, ao mesmo tempo, que nunca mais chegava a hora.
Tive momentos em que chorei. Não pela dor, mas porque talvez duvidasse da nossa capacidade ou simplesmente porque me vinha ao subconsciente o parto do Simão.
E também dormia ou descansava nos curtos períodos de intervalo.

Chorava uns segundos e calava-me. E puxava.
A determinada altura a Bina, lá fora, chorou comigo…
Esteve sempre calada. Não ladrou. Foi impecável. Mas sentiu e chorou comigo.

A Isabel e a Inês tentaram pôr mais água quente com tachos aquecidos na cozinha mas não houve tempo para muito mais... Entretanto tiraram a mangueira que continuava a encher já com água fria. Fui eu que disse "tirem isto daqui!"
Porque a dado momento, olhei para baixo e não me fazia sentido aquilo ali no sitio onde ia nascer o bebé.

Toquei-me novamente e percebi que tinha cabelo.
Na banheira pareceu-me que não.. (adoro bebés cabeludos!)

A Isabel que, logo que pôde, equipou-se melhor, ficou sempre junto a mim, sentada numa cadeira e depois em pé para eu ficar a suspender-me agarrada aos braços dela durante o puxe.


Senti arder. Penso que primeiro à frente e depois no rabo: o anel de fogo.
"Está a arder!"
Fui dizendo o que sentia porque as parteiras nunca me tocaram.
Eu fui a minha parteira.

Em certo momento estava meio irritada, talvez de pensar que nunca mais nascia ou manter as minhas dúvidas na nossa capacidade de parir/nascer e tentei com as mãos afastar os lábios. Só percebi isso porque vi no vídeo. Mas não sentia que estava a fazer grande coisa.

Entretanto a cabeça lá saiu.
Não consegui "respirar o bebé para fora" como aprendi com a Janeth Balaskas e a Núria Vives. Fiz mesmo força. Empurrei-a e senti os pés dela também a empurrar cá dentro.

A única coisa que posso apontar a mim mesma neste nascimento foi essa pressa no final.
Tive de meter lá as mãos!

Senti-lhe a cara cá fora e vi que tinha uma circular do cordão ao pescoço. Disse em voz alta, mas percebi logo que era larga.
Só aí a Isabel pôs as mãos na água e tirou o cordão. Disse-me depois, que o fez só para eu não estar com essa preocupação, mas que não era necessário. E eu sabia que não.

Entretanto, achei que estava a demorar a sair o resto do corpo e pedi-lhes ajuda. E não demorou nada, mas pronto. Cabeça de enfermeira moldada por anos de experiências assistidas, sempre com intervenção, em vez de deixar os bebés rodarem e saírem por eles.

"Ajudem-me!" Qualquer coisa do género. "Tirem o bebé".

Mas as parteiras esperaram.

E a bebé saiu e eu puxei-a logo para o meu colo e sentei-me. O André ao meu lado.
Um cordão muito comprido. Ficou logo branquinho.

Chorei. Muito. Em simultâneo com ela.
Agradeci muito ao André. Sem ele não era possível. Dei-lhe beijinhos.

Só depois vi que era uma menina.
Eu sabia cá dentro que era…

"Temos uma filha".
Senti necessidade de dizer em voz alta para acreditar.


Entretanto, as parteiras foram buscar uma toalha molhada em água quente porque a da piscina não estava à temperatura ideal...

Uns minutos depois acharam melhor ela sair para não ter frio. E tudo bem. O cordão já tinha parado de pulsar e também eu comecei a tremer.

Depois de cortarem o cordão (o André não quis porque lhe fazia impressão), ele saiu da piscina, secou-se e passaram-na para o colo dele.

Entretanto a Isabel percebeu que a placenta já se estaria a soltar.
Pedi-lhe um tempo.
Respirei, fiz força e puxei eu pelo cordão.
Saiu muito bem.
Pareceu me pequenina. O cordão era mais fininho que o do Simão.
Passei-a para a taça. Tenho uma foto ou duas a rir-me com a placenta na mão. Que felicidade! :P

Ajudaram-me a sair e secaram-me. Fui para a chaise longue do sofá a tremer. Puseram muitas toalhas para ficar mais quente.
Mas, quem mais me aqueceu foi ela. Estava tão quentinha vinda do colo do pai ;)

Depois ali ficamos um tempo.
As parteiras confirmaram que não estava a perder sangue e foram fazer os prints da placenta para a cozinha. Pareceu-me que se estavam a divertir com os trabalhos manuais :)

E eu a namorar com a minha bebé. Sossegadinhas, sem interferências.

Só mais tarde fizeram os registos e deram os pontos com anestesia local spray.
Sem picada.
Tinha lacerado um bocadinho para o rabo. Superficial, felizmente, e sem apanhar a porcaria das varizes.


Passado um bocado, pesaram e mediram a bebé e administraram a vitamina K enquanto ela estava a mamar. Só chorou mesmo ao sair da agulha.

Liguei para casa dos meus pais ainda a bebé estava a chorar.
Achei melhor fazer uma videochamada para o Simão nos ver e mostrar à minha mãe e irmã que tinha nascido. Em casa. E era uma menina. ;)


O Simão achou piada ela estar a chorar. Ficou todo eufórico.

A Isabel e a Inês começaram a arrumar tudo. Esvaziar a piscina e arrumar as toalhas sujas.

A minha mãe achou que estivéssemos sozinhos! Virei a câmara para as parteiras e ela ficou mais descansada.
Disse-lhes para virem quando quisessem. Estávamos tão bem…

Mais tarde, falamos com os pais do André. Primeiro, ele enviou umas mensagens e logo a seguir o pai dele fez uma publicação no facebook :P. Depois por telefone, o que deixou a mãe dele super confusa por eu "já" estar em casa :D
Eles vieram também conhecer a bebé e só depois de cá estarem é que perceberam que tinha sido cá em casa.

As parteiras foram embora umas 3 horas ou mais depois do parto. Ainda comeram e beberam café. Pelo menos a Isabel que não tinha almoçado. Não lhe demos tempo!!!
Eu também comi carne e arroz eram umas 17h. Que maravilha de começo de puerpério!  :D

Antes de saírem, estivemos a ver a lista de nomes mas não chegamos a conclusão nenhuma e vimos também o vídeo do momento do nascimento. Nesse preciso momento, a bebé começou a chorar! Super sensitiva. Tive que lhe dizer que a mamã estava bem, mas imaginava que a ela lhe tivesse doído...

Depois de saírem e antes de chegar a minha irmã, mãe e Simão, conversámos os dois.
Disse ao André para ser ele a decidir o nome.
Achei que merecia.
Ele apoiou-me para além de qualquer expectativa!...

Tinha de ser ele a escolher o nome.

Ele consultou novamente a minha lista com as duas colunas: menino ou menina.

E daí ficou Inês.


Inês
Parto natural, em casa
27.06.2020    15h17

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Nascer está a mudar

Há muito que não escrevo sobre a minha outra paixão, a saúde materna...
Já lá vão 4 anos que sou especialista nesta área, mas é um amor bem mais antigo.

Quando engravidei, decidi que não fazia sentido partilhar aqui os meus pensamentos e ideias sobre a maternidade. Não queria tornar isto um babyblog.

Mas desde que fui a uma formação sobre Parto Ativo com a inspiradora Janet Balaskas (fundadora do Active Birth Center em Londres) que renovei a minha motivação para defender, conforme posso, a bandeira do parto.
O mundo precisa de mais partos naturais, fisiológicos, ativos, não apenas pelo movimento físico, mas pelo papel ativo que a mulher/casal/bebé podem e devem assumir no seu parto/nascimento, sempre que tal é possível.

No meu dia-a-dia de trabalho (numa maternidade central) assisto diariamente à força esmagadora das políticas do nascimento.
Refiro-me a todas as normas, deveres, obrigações no parto institucionalizado que não respeitam a liberdade/autonomia/poder/capacidade da mulher/casal/bebé para parir/nascer.
São políticas que não oferecem opções naturais, pelo contrário, forçam a intervenções para minimizar o efeito de outras intervenções.
E, em muitos casos, não se regem por evidências científicas, mas apenas por tradição, porque "aqui' é assim...
Porque mesmo quando o risco é baixo, é sublinhado o medo e o risco do parto. Risco que é aumentado de sobremaneira pela interferência médicas e tecnológica.

Encontrei hoje este texto no facebook do "Badassmotherbirther" e fiz a minha tradução:

"Imaginem o quanto as políticas de nascimento mudariam se todas as mulheres:
- Percebessem que são elas que têm o poder
- Percebessem que elas e só elas dominam o seu corpo
- Não fossem ensinadas a ter medo do parto
- Lhes fosse perguntado se podiam ser tocadas em vez de forçadas
- Fossem ensinadas a acreditar no seu corpo e no parto

Imaginem o quanto as políticas de nascimento mudariam se o parto fosse considerado um evento natural da vida em vez de uma emergência


Imaginem o quanto as políticas de nascimento mudariam se tomassemos o parto como algo nosso

Não As políticas de nascimento deixarão de existir quando elas não tiverem mais poder sobre o TEU parto

Uma mulher confiante, tem opiniões e consegue parir segundo os seus termos é muito assustadora para as políticas do nascimento


As políticas do nascimento têm medo que TU acordes


Imagina se os papéis fossem invertidos e estas tivessem medo em vez de ti..."




Para terminar, só para esclarecer e não pensarem que estou doida:
Os avanços da tecnologia e da medicina são uma importante conquista. Felizmente temos fácil e rápido acesso às mesmas nos casos em que são realmente necessárias ou sempre que são necessárias.
Mas para tudo, deve haver peso, conta e medida, para que o benefício da sua utilização não se torne inferior ao prejuízo.
O parto é um acontecimento normal, natural, fisiológico, para o qual o corpo da mulher e do bebé estão preparados. A cultura é que nos fez esquecer isso...

Mas a cultura já está a mudar ;)


terça-feira, 10 de abril de 2018

Trail Bela Bela 2018




Num fim de semana super concorrido em provas de trail, apesar de termos curiosidade em conhecer o Zela Ultra Maratona, não podíamos deixar de ir à terceira edição do Trail Bela Bela aqui pertinho, em Belazaima do Chão (Águeda). Fico à espera que numa próxima edição, a data não coincida...

A zona de Belazaima tem tudo para trilhos fantásticos: montanha, água, rochas, (lama) e a organização conseguiu aproveitar todas as condições do terreno, melhoradas (ou com grau de dificuldade acrescido) pelo tempo dos últimos dias e fazer uma prova muito boa!

Apesar de já ter feito uns treinos por ali, sobretudo há uns 4/5 anitos quando me comecei a interessar pelo trail, e gostar e conhecer minimamente a zona, ainda não tinha tido oportunidade para participar no evento organizado pela equipa Bela Bela, que como o nome indica é dali mesmo, Belazaima.

Pra começar, como o A., optei cheia de força (not!) pela distância maior, 30km. Tudo ou nada! Desde que não ultrapasse os 40km penso sempre que me devo aguentar, nem que seja a rastejar...
Além desta distância, havia o trail de 16km, no qual participaram os restante elementos da equipa de trail à qual agora fazemos parte, a caminhada de 8km que ainda atraiu bastante pessoal.

Mas vamos lá ao meu relato da prova, tipo 42  :P

Uns dias antes, soube que bastava chegar ao fim para subir ao pódio. A questão era chegar. 30km e 1200+ de acumulado não é assim tão pouco e com os treinos super intensivos de 8/10km uma vez por semana não estava assim tão confiante. Mas, bora lá!

A partida dos 30 foi à hora certa, logo depois de um tiro de caçadeira ("estamos numa zona de caça" diz a speaker). Nos primeiros metros ia toda satisfeita por estar a acompanhar os homens que iam todos a gerir o esforço nos primeiros kms e ainda bem que assim fiz. Nunca mais vi a minha adversária SenF (afinal na partida já éramos só duas... :S).

Os primeiros kms foram bastante giros. Passamos por umas 10 vezes, as ribeiras pelo meio de florestas de carvalho, sempre em cima de pontes construídas propositadamente pela organização. Depois de provas como os Abutres e mesmo a de há duas semanas em que atravessamos o rio com água acima do joelho, não era algo a que estivesse habituada (e ainda bem que não me habituei que ainda tinha muito rio para correr! Mas já lá vamos...). Mas dou os parabéns à organização pelo cuidado e rigor na construção e garantias de segurança das pontes, algumas com rede no chão e tudo para não escorregar. Um luxo!  ;)

Antes do primeiro abastecimento, aos 6km, já ia em segundo lugar das mulheres, e primeiro SenF e assim me mantive até ao final.

Parei em todos os abastecimentos, mesmo neste logo ao início, para comer qualquer coisa e ainda usei um gel e uma barrita. Nada de repetir o erro de ficar com fome, parar para comer e ser passada por falta de energia.

Saindo do abastecimento, começou aos poucos a subida, passando primeiro por um túnel de uns 20 metros que apesar de cheio de água, estava espetacularmente bem iluminado com uma fita de led (mais uns pontos para a organização! ;) )
Do túnel, quase até ao abastecimento seguinte, continuavamos pelo riacho de pedras. Já lá tinha passado sem água. Como estava no domingo era bem mais giro, mas de progressão lenta.

Olhando para o gráfico, tinha a primeira subida a sério para fazer e ela não tardou em aparecer, começando com uma escalada super divertida pedregulhos acima, sempre com imensa água a escorrer montanha abaixo.
Gostei muito desta parte do percurso. Todas as subidas de montanha fossem assim. Mal damos pelo desnível positivo a acumular. Foi a cota parte de skyrunning do Bela Bela :P






Fotos do Zé

Novo abastecimento aos 12kms. Curta paragem que já tinha sido passada pelos primeiros dos 16kms e não me queria atrasar muito para poder fugir à chuva que se previa a valer a partir das 13h e siga a correr montanha abaixo. Sem medo, a gozar a aderência das sapatilhas novas e a tentar ganhar tempo.

Conhecia a zona que se seguia dos primeiros PR que fiz há quase um ano com o S. pequenito no marsúpio e tinha-me parecido pelo gráfico da altimetria que seria uma descida sem grandes invenções. Desta vez não me enganei...




A paisagem estava bastante diferente de Maio do ano passado, mais verde e com muito mais água. Aliás, água foi coisa que nunca faltou nesta prova, felizmente, só mesmo a chuva foi pouca. Seguimos por uma levada junto ao rio. Apanhei um rapaz que me tinha passado na subida anterior e fiz uns kms com companhia, para variar.
Ele deu uma queda pedras ao pé da água e logo uns metros depois também fiz questão de malhar no meio de uma rocha cheia de verdete para cima do meu braço direito. Fiquei com uma dor de cotovelo, mais siga, é vida! ;)

Entramos na aldeia para o abastecimento dos 20kms. Sentia-me bem, apesar de durida da queda, e tal como nos abastecimentos anteriores, parei para comer e fiz questão de me sentar uns segundos. Nunca mais tinha voltado a ver gente para trás por isso também não havia pressa. Voltamos a entrar no mato, atravessamos o rio algumas vezes (aqui já não havia pontes para ninguém) sempre à espera do início da derradeira subida, mas o trilho mandava-nos uma e outra vez para a água.

Até que a seguir a uma zona com inclinação mais acentuada e depois de uns pingos de chuva mais grossa, lá começou o maldito estradão em ziguezague montanha acima. Pelo menos não era em descampado como no Piódão. Tinha os eucaliptos para enganar e pensarmos que terminava já ali..
Ainda deu para uma selfie, depois de ter passado o meu companheiro dos últimos kms. :D


(Nota para mim: desistir de vez das selfies!)

Finalmente vejo a copa das árvores e o bendito marco geodésico. A subida tinha terminado! Ufa! Bota a correr por ali abaixo até ao abastecimento dos 25km. Olho mais uma vez para o dorsal, pelo gráfico depois são só 5kms praticamente sempre a descer, na boa. Tá no papo. Querias...

No abastecimento várias pessoas me dizem para ter cuidado. Que agora era perigoso... Mau, o que é que vem aí. Que se lixe, só faltam 5km mesmo!


(Cara de má... Devia tar ligeiramente frustrada)

Bastaram uns metros de corrida para ficar a saber. Seguia-se uma parede de rochas escarpadas aos S para descer, num piso cheio de poças de lama preta. As bicas de Aguadalte. "Ui, isto afinal vai demorar..."


(Como é óbvio não sou eu, mas ficam com uma ideia de onde passei ;)

Siga, monte abaixo a tentar correr o possível, mas com receio de nova queda, aqui bem mais perigosa.
Até que depois de um bocadinho de estradão em que já se via as casas lá em baixo, chego ao último posto de controlo, ao pé da água. Já fazia falta, não era?



Ora pois que o pessoal pensou em nós e não quis que chegássemos à meta com o pézinho sujo e toca de seguir rio abaixo durante uns talvez 500m. "Tá quase..."

Tirando a parte da água estar fria e já me estar a fazer doer as costas, tudo bem, nao caí e bastava pensar que já faltava mesmo pouco.


(Que pena não ter fotos desta parte, mas os fotógrafos não eram assim tão doidos :P)


Mais um bocado a correr, já a ouvir o microfone (como eu gosto de ouvir o barulho da meta mesmo sem a estar a ver!) e ainda consegui passar um grupinho da caminhada (deviam ser os últimos! :P).

E pumba, tá feito!


Melhor que o pódio, que em 5 mulheres não tem grande significado, foi chegar bem disposta, sem mazelas nem grandes dores. Nada a ver com a primeira deste ano...

Escrevi imenso, mas já agora reforço os parabéns à equipa do Bela Bela.
Fizeram um esforço enorme para organizar toda a logística das 3 distâncias, marcações sem repreensões, trilhos bem pensados, divertidos e desafiantes q.b., os abastecimentos bem distribuídos e com o suficiente, o almoço impecável e bem servido, os fotógrafos já nossos conhecidos (como as Fotos do Zé, Fotojotapê, o Carlos Coelho e outros) bem distribuídos por todo o percurso, inscrição a preço acessível para variar...

Diz que pro ano tenho direito a inscrição grátis. Se depender só de mim, já lá estou com ou sem essa oferta ;)

A seguir?
Ah pois, já estou a pensar na próxima.
A minha estreia em meia-maratona. A ver vamos ;)

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Exercício físico: o (bom e velho) ansiolítico e indutor da ovulação


Olá caras corredoras e adeptas de exercício físico em geral!

Mais uma vez [parece que] só me dirijo às mulheres, talvez seja defeito profissional, contudo, peço aos leitores do sexo masculino que, caso conheçam alguém que identifiquem no perfil que vou enunciar, e se acharem que o que escrevi faz algum sentido, dêem conhecimento às vossas mulheres, familiares, amigas e por aí em diante...

Perfil: mulher, amante de desporto, com vontade de ser mãe e receio que a sua paixão pelo exercício físico a prejudique um dia quando quiser engravidar, ou pense que deve parar de correr, ou seja o que for, para não inibir a ovulação.

Quem se enquadrava neste perfil, apesar de já ter estudado (um bom bocadinho) de Obstetricia: eu.
Ou será melhor dizer, eu, a tolinha/medricas/ansiedade em pessoa???

Mas assim fiz há mais de um ano atrás.
Fiz os 42kms do TSM e parei.

Plano: ser capaz de fazer uma maratona trail e parar de tomar a pílula.
Engravidar logo de seguida e zás-trás, 9 ou 10 meses depois, ter cá a minha coisinha boa!
Ser mãe ainda antes dos 30.
Era este o meu plano...

Tinha emagrecido, naturalmente (depois de uma prova daquelas e com o calor infernal que esteve!), mas com o descanso e sem os stresses do trabalho a coisa acabaria por ir ao sítio. Pensava eu...

Mas o descanso não foi suficiente, os stresses no trabalho aumentaram, a ansiedade por não ver o resultado pretendido também, o tempo a passar não ajudaram nada e ter deixado, assim tão de repente, a minha corrida estava a dar cabo de mim, psicologicamente. Fazia-me uma falta tremenda!
Tive uma crise de ansiedade, vomitei o que havia e o que não havia. Enfraqueci novamente.

Os meses foram passando. Negativo.
As caminhadas cada vez mais longas com a Bina (a minha cadela) foram ajudando, mas fazia-me falta correr...
Amenorreia. Negativo. Análises alteradas.
Outra amenorreia. Nem análises, nem teste fiz. Queria lá saber! Ou melhor, já sabia que era negativo!...


Chegam Janeiro 2016 e os Abutres. A prova.
Fomos ver. As memórias chegam com força, as saudades e a pena de não estar ali a viver aquela prova por dentro, até doem...

Chega!
No dia a seguir fui correr.
Deviam ter sido uns 5 ou 6 kms, mas foram 12,26 km (diz o sr. Endomondo). Ainda me lembro de chegar a casa super cansada mas feliz, as minhas pernas ainda sabiam correr aquela distância! Uhuuuh!!!

Depois desse dia, não parei.
Tentei fazer pelo menos uma corridinha por semana, para além das caminhadas com a Bina.
No ginásio aumentei a carga, já não me faziam impressão os abdominais ou as pranchas nas aulas de CX Worx. Ficava toda contente com os resultados - menos dores de costas - e os progressos - já aguentava a aulinha toda (tirando a parte dos elásticos, vá... :P) sem parar!.
No final de Março, início de Abril, tornei-me mais regular na corrida, com a companhia de uma amiga (dei cabo dela! eheh).
E o meu útero e ovários também regularizaram a sua função. Boa!

Inscrevi-me numa prova de BTT. A única que alguma vez tinha feito. Queria muito lá voltar, mostrar que era capaz de fazer melhor.
Era suposto a menstruação ter vindo uns dias antes do domingo da prova. Supostamente já estava regular. Mas não veio... "Azar, vou à meia-maratona na mesma!"
E fui!


Rota da Mamoa 2016, aí vou eu! (Pela primeira vez Masters A, baaahhh)

Estava bastante ansiosa até começar a ver que me portava bem na prova. Afinal, não cair e chegar ao fim eram os meus grandes objetivos. ;)
Estava a correr bem, mas perdi muitos lugares no início e fiquei atrás do pelotão que nas subidas parava sempre! Ca nervos! "Eu até conseguia subir isto em cima da bike, se não tivesse esta gente parada à minha frente..."
Fui progredindo conforme houve espaço e pernas.
Cheguei ao abastecimento a meio da prova toda satisfeita e cheia de energia.
"Está no papo!" pensei...
Mas veio a fome. Muita fome! Tinha a impressão que a barrita que trazia no bolso não ia descer e o abastecimento das bifanas a 3kms do fim nunca mais chegava...
Fui parando nas subidas para poupar energias até que cheguei à bendita zona das bifanas. "Se faz favor, tire a bifana e dê-me só o pão". Ficaram a olhar para mim, mas depois de ali estar percebi que não ia conseguir comer aquilo... Não sabia porquê...
"Só faltam 3kms pá, deixa-te de coisas! Bora!" pensei.
E lá fui. Toda podre. Só consegui acelerar mesmo na reta final. Estava mesmo cansada e com FOME!!!
Demorei 3 horas a fazer 35km. Sétimo lugar do escalão, uma tristeza... :P
Mas uma alegria por ter alcançado os meus objetivos e por o A. ter feito a mesma prova em metade do meu tempo e ter ganho! ;)

3 dias depois, o teste. O maldito teste... Mas tinha que ser  :S
Resultado: POSITIVO!!!

"Ok, já percebi de onde veio tanta fome..."  ;)


Não era suposto ter escrito este post assim.
Não era assim que o tinha pensado, acreditem.
Mas em vez de conselhos, pareceu-me que fazia mais sentido um relato. O meu.

Espero que vos inspire, ajude, anime. ;)

Só um conselho pequenino, para terminar, prometo!...
Não deixem de fazer nada.
Vivam a vossa vida, façam aquilo que adoram e vos faz bem.
E depois? Depois logo se vê! ;)

sábado, 23 de abril de 2016

Reconheces que continuas viciada quando...


Apesar de já não correr nada de jeito há quase um ano, passas o dia a conferir os tempos de passagem de pessoal conhecido nos postos de controlo do MIUT...
E a imaginar-te a passar pelos mesmo lugares, sentir as mesmas dores na pele, nos músculos, nos ossos, mas poder ver e viver as mesmas paisagens de cortar a respiração...
Sonhar um dia correr nos mesmos trilhos.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Reflexos na água


Uma terra quase abaixo do nível do mar tem disto: campos e caminhos alagados, depois de umas horas de chuva.

Ainda vão passar algumas semanas até que as patas da Bina e as minhas sapatilhas deixem de chegar a casa da cor da lama...

Entretanto aproveitamos para chapinar e brincar com os reflexos na água.








quarta-feira, 30 de março de 2016

Trilho dos Poços (PR7)


É verdade, andei desaparecida. Confesso que um dos motivos tem sido o facilitismo da partilha instantânea de fotos pelo instagram. Também o uso do IPad faz-me descurar a máquina fotográfica, apesar da qualidade das fotos não ter qualquer comparação...
Mas tenho pensado muitas vezes em cá voltar, limpar as teias de aranha que os 3o estão quase aí. 
Aos poucos, vou pegando na máquina, mesmo que o sol da Primavera ande meio escondido e não tenha iluminado as fotos como eu gostaria...

Assim como as margens da Pateira vão perdendo o castanho da lama que veio com as cheias e ficando cada vez mais verdes, o Basta vai ganhando vida. ;)

Todas as semanas, eu e a Bina palmilhamos uns bons kilómetros por aqui. Na semana passada, para mudar ligeiramente de ares, fomos à outra margem, fazer o PR7, o Trilho dos Poços.










Passámos por uns 50 poços, mas acabei por só fotografar o último... :P



Álvaro, Monsanto e Belmonte

No início do mês aproveitamos uma das minhas prendas de Natal e fomos numa escapadinha ao interior.
Apesar da ameaça constante de chuva, saímos de Oleiros e fomos conhecer Álvaro, uma Aldeia de Xisto branca, semeada na encosta, onde se vêm os meandros do Zêzere.





A ideia era seguir para a Covilhã e ver a neve na Serra, mas optámos por fazer um desvio a Monsanto, a Aldeia mais Portuguesa de Portugal.
Almoçámos, subimos ao castelo onde fomos recebidos por uma gatinha branca e admiramos a vista.











Ouvimos na rádio que havia estradas cortadas na Serra por causa da tempestade (nesta foto ainda se vê um bocadinho de neve...). Acabamos por rumar a Belmonte.
Estava um frio de rachar, sempre que o sol se escondia e por causa do vento. Por isso foi uma visita bem curtinha.




Na verdade tivemos sorte, porque mal saímos de uma terra, começava lá a chover, mas ficámos com vontade de voltar a estas bandas, com uma temperatura mais amena...
Eu, para fazer umas caminhadas pelos PR (com a Bina, claro!), o A. para fazer a GR de bicicleta.